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Quarta-Feira, 25 de Novembro de 2020 07:34

Conjuntura Política: Dostoiévski explica

13/10/2020

Presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido) (Foto: Reprodução/ Estadão Conteúdo)

Por Fernando Guerra

Para muitas questões de natureza psicológica, quando nos deparamos com uma situação inexplicável ou, contraditoriamente óbvia, e queremos fugir à sua revelação, recorremos tantas vezes ao jargão Freud explica! 

Tinha feito uma promessa para não me reportar tão cedo ao presidente Jair Bolsonaro, guru das bancadas da bala e do boi, responsável pelo desmonte da política ambiental e indigenista, terror dos intelectuais, dos cientistas, inimigo da imprensa livre entre tantas outras (des) qualificações.  Infelizmente não me contive.

Useiro e vezeiro das fake news que tanto espaço tem ocupado na mídia eletrônica, é responsabilizado pela criação de hordas de fanáticos, muitos deles violentos, que trouxeram para o ambiente político a intolerância e seus consequentes confrontos, incompatibilizando amigos e mesmo familiares com sua mania de ver comunistas até debaixo das pedras.

Sobre esse assunto, fiz todas as avaliações e a matemática não batia! A lógica destrambelhou-se de tal forma que se tornou absolutamente incompreensível a afirmação orquestrada pelos seus adeptos, fieis seguidores, que o papa, o Papa Francisco é comunista de carteirinha!

Lá me vou recorrer a Sherlock Holmes: é elementar, meu caro Watson! 

Por mais cientista que Jair Bolsonaro o seja, com seu receituário onde se inclui a cloroquina contra a covid-19, não consegue passar para os seus admiradores que essa mesma ciência que ele professa entender sabe desde priscas eras que, quando se parte de premissas divergentes, não se chegará nunca ao mesmo lugar. Embora as linhas paralelas, como afirmam, encontram-se no infinito, convicções diferentes não coabitarão no mesmo espaço. Aproprio-me de uma expressão do mais radical de todos os intelectuais de direita, Nelson Rodrigues: é o óbvio ululante. 

Ora, o Papa, assim como o Dalai Lama, são líderes espirituais e o comunismo em sua doutrina é por natureza materialista, não reconhece a espiritualidade. Então quando alguém se refere ao Pontífice, a bispos e padres chamando-os de comunistas, devemos, a bem da verdade, considerá-lo como um desses personagens deformados em essência, de caráter duvidoso.

Esse é um assunto que merece uma reflexão, uma análise mais acurada, porquanto todas as vezes que a igreja coloca em prática sua opção pelos pobres, se pronuncia e toma algumas ações nesse sentido, os ricos se veem ameaçados e reagem como podem. Em síntese, verdadeiramente, o que falta aos brasileiros do andar de cima é Consciência Social. Guardem essa expressão Consciência Social.

A cantilena repete-se sucessivamente, ano a ano, crise a crise, dizem em uníssono, são todos comunistas! 

Só para que possamos entender o quanto se tira dos pobres com a intenção de fortalecimento da classe empresarial, o salário mínimo que o país paga, na ordem de 1045 reais faz vergonha diante do que a Argentina remunera seus trabalhadores cujo piso é de 2826 reais. O pior é que nosso país, nesse quesito, ocupa o 13º lugar entre as nações da América do Sul.

Passemos adiante.

Lamentamos, mas não dá para suportar de bico calado o festival de besteiras proferidas por JB que deixou Dilma de chinelos e de queixo caído. O nosso presidente fez um pronunciamento magistral revelando para o mundo algo tão sonhado quando disse retumbante “acabei com a Lava Jato porque não tem mais corrupção no governo!”. 

Pelas barbas do profeta! Quanta imaginação!

Dostoévski, em seu livro Crime e Castigo deu a sentença pelas palavras do personagem Svidrigáliov quando este afirmou que “toda a gente se arranja como pode e, de todos, aquele que melhor vive é o que sabe iludir-se a si próprio”.  

Desculpem os nomes russos, talvez seja necessário advertir os navegantes, que esse romance de onde extraí essa pérola, foi escrito antes da queda do czarismo, ou seja, quando ainda não se falava em comunismo e, por conseguinte, em comunistas.

Banir os corruptos do poder é uma questão de honra, assim como combater a pobreza e sua consequência mais nefasta, a miséria. Não é reduzindo salários, calando a voz dos operários, intimidando os oprimidos, que se estabelecerá o equilíbrio social. A luta contra a corrupção é um dos instrumentos eficazes para se atingir a justiça social, retomar o desenvolvimento e não deve ser tratado en passant de forma irresponsável.

Cada vez mais me sinto particularmente convencido de que Jair Bolsonaro usa essa conversa fiada para afastar as investigações sobre a sua própria família. Ainda assim é provável que passe a acreditar nessa mentira levando consigo um séquito de fieis seguidores. Certamente, vai incorporá-la às suas próprias convicções e, seja capaz até de deitar e dormir o sono dos justos.

Dostiévski explica.

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